Uma conta de anúncios suspensa a meio de uma campanha custa duas semanas e a confiança de quem a autorizou. Uma queixa ao regulador custa bastante mais. A boa notícia é que quase tudo o que faz uma clínica crescer se pode dizer — desde que se saiba dizer.

Antes de continuar

Este artigo resume a prática com que trabalhamos todos os dias na revisão de criativos. Não é aconselhamento jurídico: quando a campanha envolve tratamentos sensíveis ou reivindicações clínicas, a validação final deve passar pelo responsável clínico e, se necessário, por advogado.

Três camadas de regras, e todas se aplicam ao mesmo anúncio

É aqui que a maioria das clínicas se perde: pensa que há um livro de regras. Há três, e um anúncio tem de passar nos três.

  1. A lei e o regulador do setor. Publicidade a estabelecimentos e atos de saúde tem limites próprios, mais apertados do que a publicidade comum, e o regulador do setor supervisiona-os.
  2. As ordens profissionais. Médicos, médicos dentistas, enfermeiros e outras profissões têm códigos deontológicos com regras próprias sobre o que um profissional pode divulgar.
  3. As políticas das plataformas. Google e Meta têm regras internas mais restritivas do que a lei em alguns pontos e mais permissivas noutros. São elas que reprovam ou suspendem, muitas vezes de forma automática.

Passar numa camada não protege das outras. Um anúncio aprovado pelo Meta pode continuar a ser uma infração deontológica.

O que o regulador do setor exige, em traços gerais

Sem entrar no detalhe legal, há princípios que se repetem em todas as orientações e que se traduzem bem em regras práticas de escrita:

  • Veracidade. Tudo o que se afirma tem de ser verdade e demonstrável. «A clínica com melhores resultados da região» não é demonstrável; «mais de 4.000 tratamentos desde 2004» é.
  • Sem garantia de resultado. Nenhum ato clínico pode ser apresentado com resultado assegurado. «Elimina as dores de costas» é problemático; «tratamento para dores lombares crónicas» não é.
  • Identificação. O estabelecimento deve estar identificado e, onde se aplica, o diretor clínico responsável.
  • Sem banalização do ato clínico. Um tratamento não pode ser comunicado como um produto de consumo comum, com urgência artificial ou desconto de campanha.
  • Sem exploração do medo. Comunicação que assente em assustar o paciente para o levar a tratar é sancionável.
A regra que resume as outras: se a frase promete o que só se sabe depois de examinar o paciente, não pode estar num anúncio.

O que as plataformas bloqueiam, na prática

Google e Meta não leem a lei portuguesa. Leem os seus próprios manuais, e reprovam por padrões. Os motivos de reprovação que vemos com mais frequência:

  • Atributos pessoais. Insinuar que se conhece uma condição do utilizador — «Está com falta de dentes?», «Sofre de ansiedade?» — reprova quase sempre no Meta. A mesma ideia na terceira pessoa passa: «Soluções para quem perdeu dentes».
  • Imagens de zonas do corpo em destaque. Muito comum em medicina estética. Aproximações a abdómen, glúteos ou pele com marcações são tratadas como conteúdo sensível.
  • Antes e depois. Bloqueado por política em anúncios pagos, em ambas as plataformas.
  • Linguagem de resultado. «Perca 10 kg», «cura», «garantido». Reprova por si só.
  • Categorias especiais. Alguns tratamentos exigem certificação prévia da conta ou restringem segmentação por idade e por interesses de saúde.

Antes e depois: o caso mais delicado

É o formato que mais converte e o que mais problemas dá. Em anúncios pagos, a resposta prática é simples: não se usa. Nem em imagem, nem em vídeo, nem disfarçado de «resultado real de paciente».

Nos canais orgânicos existe uma zona cinzenta que muitas clínicas usam. Se a clínica decidir usá-lo, há condições mínimas que não são negociáveis: consentimento escrito e específico para o fim publicitário, ausência de qualquer garantia de resultado equivalente, e a menção de que os resultados variam de pessoa para pessoa. Ainda assim, é uma decisão que deve ser tomada com o responsável clínico, não com a agência.

O que substitui bem, e que temos visto converter tão bem ou melhor:

  • O processo em vídeo: como decorre a primeira consulta, o que se sente, quanto tempo demora.
  • A explicação técnica feita pelo profissional, a olhar para a câmara, em noventa segundos.
  • Os números da clínica: anos, casos acompanhados, equipa, equipamento.

Preços e promoções

Publicar preços não é proibido, e há vantagem em fazê-lo. O que não pode é o preço tornar-se o argumento e o ato clínico tornar-se mercadoria. Na prática, isto separa bem os dois lados:

EvitarFunciona
«Implantes a 599 €. Só esta semana!»«Implante unitário entre 850 € e 1.400 €, consoante o caso.»
«2 por 1 em harmonização facial»«Avaliação com plano escrito e orçamento fechado.»
«Últimas vagas — desconto de 40%»«Agenda aberta para novas avaliações em setembro.»

Repare que a coluna da direita não é mais fraca comercialmente. É mais concreta — e concreto converte melhor do que urgente, sobretudo em decisões que envolvem o corpo.

Testemunhos de pacientes

Testemunhos são território sensível por duas razões acumuladas: podem constituir garantia implícita de resultado e envolvem dados de saúde de uma pessoa identificável.

Se forem usados, três cuidados:

  1. Consentimento escrito e específico, com indicação clara dos canais onde vai ser publicado e por quanto tempo.
  2. Sem afirmações de resultado. «Fui muito bem tratada e a equipa explicou tudo» é experiência. «Fiquei curada em duas sessões» é resultado.
  3. Direito a retirar. O consentimento pode ser revogado, e a clínica tem de conseguir despublicar depressa.

As avaliações públicas na ficha da Google são um caso à parte e mais confortável: são do paciente, no espaço dele. Pedir avaliações é legítimo; oferecer algo em troca não é.

RGPD: dados de saúde são categoria especial

Este ponto escapa a muita gente que trabalha bem tudo o resto. Um formulário onde a pessoa escolhe o tratamento que procura está a recolher dados relativos à saúde, que o RGPD trata como categoria especial, com exigências acrescidas.

  • Consentimento explícito e separado, com finalidade concreta — não uma caixa única a dizer «aceito os termos».
  • Política de privacidade acessível a partir do formulário, que diga quem trata os dados, com que fim e durante quanto tempo.
  • Cuidado com o envio destes dados para ferramentas de publicidade. Enviar «tratamento pretendido» para uma plataforma de anúncios é um erro sério e comum.
  • Prazo de conservação definido para os contactos que nunca marcaram.

Como escrever à volta das regras sem perder força

A conformidade não obriga a escrever anúncios mornos. Obriga a mudar o objeto da frase — de resultado prometido para acesso facilitado.

Em vez deEscreva
«Recupere o seu sorriso — garantido»«Avaliação de implantes com plano e orçamento no mesmo dia»
«Fim das dores de costas»«Fisioterapia para dores lombares, com reavaliação às 6 semanas»
«O melhor dentista de Faro»«Mais de 4.000 tratamentos em Faro desde 2004»
«Sofre de enxaquecas?»«Consulta dedicada a enxaquecas, com marcação em 48 horas»

Todas as frases da direita passam nas três camadas de regras. Nenhuma delas é mais fraca: dizem o que a pessoa recebe, quando o recebe e a que distância está do primeiro passo. É isso que faz alguém carregar.

Perguntas frequentes

Quem responde se um anúncio infringir as regras?

A responsabilidade é sempre do estabelecimento e do responsável clínico, mesmo quando o anúncio foi feito por terceiros. É por isso que a validação clínica dos criativos não é burocracia — é proteção.

A minha conta foi suspensa. O que faço?

Não crie contas novas: é a forma mais rápida de tornar a suspensão permanente. Identifique o criativo reprovado, corrija a causa concreta e submeta um pedido de revisão. A maioria das suspensões por política de saúde resolve-se em poucos dias quando se corrige a causa em vez de recorrer.

Posso segmentar pessoas por problema de saúde?

Não. As plataformas removeram os interesses ligados a condições de saúde. O que se faz é segmentar por intenção de pesquisa e por geografia, que é mais eficaz e não levanta o problema.

Todos os criativos têm de ser revistos?

Todos. Na prática é uma verificação de dez minutos por peça, com uma lista fixa: promessa, imagem, preço, identificação, atributo pessoal. Fica muito mais barato do que uma conta parada.

Diagnóstico gratuito

Quer esta conta feita com os números da sua clínica?

Em 30 minutos olhamos para o valor médio do seu paciente, para a concorrência da sua zona e dizemos-lhe que verba faz sentido — ou se, no seu caso, o dinheiro rende mais noutro sítio.

Marcar diagnóstico